
Durante o período eleitoral, num dos
vários encontros de candidatos com a ala evangélica do país, um deles teve uma
repercussão maior. Foi o caso em que um pastor, na sua oportunidade, citou um
versículo, impetrando as bênçãos de Deus sobre os candidatos ali presente. Até
aqui, nada demais, aparentemente um episódio como qualquer outro, não fosse por
alguns detalhes que chamo atenção nas linhas abaixo.
1. O pastor apoiava um partido que
contraria princípios cristãos.
Sei que pra muita gente esse quesito não tem uma grande
equivalência, tendo em vista que muitos, a preços altíssimos, alinham-se sem
qualquer dificuldades com ideologias que gritam alto contra o que seria um
cristão autêntico. Nesse ponto, estampam uma vida dicotômica: pessoal e cristã.
Por essa atitude, a vida cristã é encenada e sufocada. Na perspectiva de Deus,
meia consagração significa nenhuma consagração.
Uma vida cristã autêntica deve incluir
todos os sentidos: o que ver, o que falar, o que ouvir, onde estar e o que
provar.
Sob essa perspectiva, alguns cristãos
interessam-se por certas ideologias, olhando apenas para as políticas sociais e
sabemos que isso não basta. O Evangelho alcança em primeira instância o coração
do homem, depois a alma e finalmente, o corpo. Não podemos resumir o Evangelho
em ação para o corpo. O corpo deve reagir ao que é ministrado a alma.
2. O pastor castigou a língua
portuguesa.
A intelectualidade do cristão não pode
ser desprezada. Não pode ser superestimada, mas também não pode ser em
subestimada. Há o risco de sermos racionais demais, cartesianos ao extremo e
secos em último grau. A letra é benéfica até certo ponto, mas ela não é o único
instrumento na vida cristã. Quem opta por esse caminho, vai sentir falta da
outra parte. Quanto a língua nativa, deve-se conhecer o mínimo. Não basta
apenas comunicar, mas comunicar de forma que não fira os ouvidos. Aconselho os
irmãos a observarem algumas orientações:
- Aprenda sobre os pronomes pessoais e
de tratamento. Saber dirigir-se às autoridades e pessoas simples. É possível
que, por não saber isso, diminua pelo tratamento que deve ser dado uma
autoridade. Não é bajulação, é saber como tratar!
- Aprenda sobre concordância verbal e
nominal. A Igreja de hoje é constituída de pessoas com nível cultural cada vez
mais alto e isso exige o conhecimento mínimo de como devem ser conjugados os
verbos concordando com os substantivos, quando plural e singular.
- Aprenda a pronunciar a palavra que
deseja incluir em sua fala. É normal encantar-se por uma palavra desconhecida e
falar na primeira oportunidade. Mas antes, conheça a pronúncia correta, o seu
significado e aplicação. Certa vez, vi um pregador dizer uma palavra
desconhecida. Ao ser procurado por um ouvinte para revelar-lhe o significado da
tal palavra. Sua resposta pareceu uma piada. Disse ele: "Quando estamos
pregando, o Espírito Santo coloca cada palavra em nossa boca!" A palavra?
Circunscifláutico!
- Aprenda a reagir conforme o que você
fala. Dizer que quer abraçar, enquanto tem os braços voltados para trás, ou que
está aberto a discussão com os braços cruzados é negar com o corpo o que se
fala com a boca. Essa leitura é feita pela plateia ouvinte.
Há uma necessidade cada vez maior de
dedicar-se à pesquisa, à leitura e desenvolver o hábito de escrever notas e
praticar a meditação sobre assuntos que precisam de tempo para assimilação e
domínio. Não é vergonhoso admitir que não se domina um assunto.
3. O pastor errou a citação bíblica.
Reconheço que nem sempre é fácil gravar
na mente as referências bíblicas, mas é necessário que aquelas que se pretende
citar, estejam no mínimo escritas no roteiro ou pronunciadas da forma como está
escrito na Bíblia. Em tempos antigos, era difícil verificar uma referência, mas
hoje, num clique de um aplicativo, é possível se encontrar as referências em
várias versões. Sem contar que as referências exaltam a autoridade da
exposição. Quando pronunciadas de forma fidedigna, reflete o tempo que tempo
que foi dedicado antes.
4. O pastor aplicou mal a teologia.
Ao ler a Bíblia, percebe-se que foi
escrita tendo em vista três grupos: judeus (a nação de Israel), gentios (todas
as nações, exceto Israel) e Igreja (a nação espiritual formada por pessoas de
todas as raças, tribos e nações que creram no Evangelho). A par disso, o
contexto de todo texto precisa ser avaliado para evitar más aplicações. As
regras de hermenêutica (gramaticais, gerais e exegéticas) precisam nortear a
mente na interpretação do texto. É pecado apoderar-se de promessas que não nos
diz respeito e ensiná-las à Igreja como verdade.
Dirá o leitor que a teologia é
prejudicial ao cristão. Não creia nisso. A teologia possibilita a compreensão e
aplicação certas. Ensino errado gera esperança errada.
No ápice das emoções, é possível
perder-se na aplicação do texto e dizer algo que fuja da realidade
hermenêutica.
Creio nos recursos que o Espírito Santo
disponibiliza aos leitores hoje: a revelação, para os que pregam (capacidade de
conhecer os mistérios da Bíblia), e a iluminação, para os que ouvem (capacidade
de entender). Por isso, quanto maior o zelo na interpretação, maior edificação
na Igreja.
O pastor do encontro político é uma
representação genérica da Igreja brasileira: rasa, conveniente e melindrosa. Mas
também percebo um interesse em participar de seminários, congressos teológicos
e estudos acadêmicos. Isso mostra uma luz de esperança no fim do túnel. Que
esse despertamento alcance o maior número de pessoas.
O Evangelho deve ser pregado com
ousadia, independente dos ouvintes e precisa ser prioritário em qualquer fala
de um cristão genuíno.
Nenhum comentário:
Postar um comentário