quinta-feira, 9 de julho de 2015

Dia do Pastor Trabalhador

Todos os profissionais tem um dia que o homenagea e mais o dia 1° de maio. Mas, a despeito do pastor ter um dia que o homenageia, não posso deixar que escrever algumas experiências que já vi e vivi nesses quase 5 anos que pastoreio.
Constantemente sou interrogado se, além de pastorear, eu ainda trabalho. E sempre explico que, além de servir na Igreja, vendo livros e coordeno um curso teológico. E sempre que respondo assim, vejo uma certa decepção nos olhos e sinto que as pessoas não vêem o trabalho pastoral como "trabalho" de fato.
Sinceramente, não posso falar por todos, mas a cada dia que passa, o trabalho pastoral dá mais trabalho. A Igreja, alvo do trabalho pastoral, acarreta um ritmo de atividades capaz de sugar todas as forças. Mas ninguém vê isso. Muita gente pensa que vivemos no bem-bom e que chova ou faça sol, sempre temos o melhor. Pouca gente sabe que a MAIORIA dos pastores não tem sequer ajuda de custo, nem casa própria ou carro. Não tem plano de saúde, não recolhe INSS, não tem nenhum tipo de regalia, não tiram férias, não tem um momento a sós com a família, não tem privacidade, não tem carteirinha de nenhum clube para um final de semana de lazer.
Considera luxo ter tudo isso? Então ficará admirado quando souber que a MAIORIA dos pastores tem suas noites interrompidas pois tem de mostrar prontidão cada vez que o telefone toca. Tem de ter presentes em cada aniversário, pois se der pra um e outro não receber, já achou uma briga. Tem de ser conselheiro dos mais diversificados assuntos, desde alcoolismo, drogas, violência doméstica, adultério, prostituição, contendas, criação de filhos, etc. Tem de ter sempre uma reserva de dinheiro para socorrer um irmão cada vez que precisar. Tem de ter toda a paciência do mundo para ouvir as pessoas depois do culto, falando de todos os detalhes até altas horas. Tem de ter a Igreja com seus equipamentos funcionando sempre, pois alguém pode falar do pastor se alguma coisa der errado.
Para nós (acredito que falo pela maioria dos pastores), não há maior recompensa do que ver a Igreja edificada, coma sã doutrina entronizada e Cristo ser glorificado em todos os aspectos. Ver um casamento salvo por uma orientação bíblica. Ver as pessoas se renderem a Cristo e recebê-lo como único e suficiente Salvador. Despertar a fidelidade nos irmãos pelo exemplo que ele mesmo é para com Deus e a sua Igreja. Ver uma ovelha chorar após uma longa conversa e perceber a mudança gerada por meio da verdade dos seus lábios. Ver que sua liderança é bem vista por saber que as ovelhas admiram sua seriedade e compromisso com a Obra de Deus.
O pastor da Igreja Batista Betânia, Neil Barreto, esclarece ainda mais essa asfixia: "Homens de Deus esqueceram que eram homens e decidiram viver a vida da Igreja. Eles (a Igreja) não conseguem viver as suas vidas e acham que ele (o pastor) deve viver a vida deles, negando a sua própria. O resultado é um pastor doente que, adoecido, adoece ainda mais suas ovelhas; no final, temos frutos de morte, defuntos gerando defuntos".
Alguns só conseguem ver o trabalho pastoral no horário do culto. E, por incrível que pareça, o culto é a parte mais fácil. Os bastidores não são vistos. Experimente preparar um sermão semanal! O que vem antes da exposição dominical cansa demais: orar, pesquisar, organizar e tentar através da fala ser o mais atrativo possível. E o mais surpreendente: possivelmente alguns pensarão que isso não é nada. Num mundo onde a maioria procura os seus sermões num site e ministra à Igreja como se o tivesse, por esforço próprio, construído.
Na América do Norte, ser pastor é algo nobre. Um grupo seleto tem até mesmo acesso à Presidência. São visto como pessoas respeitáveis e de grande influência. Billy Graham, Rick Warren, Max Lucado, Thomas Trask, Abraão de Almeida, James Montegomery, James Dobson e etc, são alguns nomes honrados. Mas aqui, quem temos?
Lá, um órgão do governo assiste psicologicamente os pastores, porque perceberam que eles estão fracassando mentalmente, tornando-se dependentes de medicamentos e, em casos mais tristes, cometem suicídio. Segundo dados oficias, em meados de novembro e dezembro de 2013, três pastores de megaigrejas na América tiraram suas vidas.
Aqui, segundo a visão de quem é de fora do país, a corrupção grassa entre os chamados " homens de Deus". Um exemplo foi aquele escândalo em que os beneficiados oravam recebendo suas propinas. Lamentavelmente, depois descobriu-se que aqueles eram pastores.
Mesmo com essa péssima fama, há ministros de Deus realmente comprometidos, que cooperam com Deus em sua Obra por amor. Sua motivação não está no salário que recebe, mas unicamente por chamado. Os que não têm essa convicção em si, agouram, desconfiam, suspeitam de todos os outros.
Sempre tem um que espera o pior dos pastores. Outro dia, um irmão chegou contando que alguém havia suposto que todos os pastores eram ladrões. Ao ouvir o caso, eu perguntei: "você me considera um ladrão?" Sabe o que ele respondeu? "Ainda não!" Foi a declaração mais difícil que eu ouvi esse ano. "Ainda" significa "até este exato momento"; "até agora"; "até então"; "que tende a chegar num tempo futuro"; "num certo dia"; "algum dia indeterminado". Mais uma vez vou escrever: sempre tem alguém esperando o pior dos pastores.
Pra falar a verdade, há muitas controvérsias envolvendo o pastor:
- Se o pastor é dinâmico, ele é ativista. Se for calmo, não tem visão ou é preguiçoso.
- Se o pastor é exigente, ele é intolerante e ditador. Se não exige, ele é displicente e negligente com o ministério.
- Se o pastor visita, é porque gosta de incomodar o sossego dos outros. Se não visita, é irresponsável e descuidado com as ovelhas.
- Se o pastor se veste bem, ele é vaidoso, extravagante ou janota. Veste-se mal, ele é relaxado e tem mau gosto.
- Se o pastor anda sorrindo, ele é irreverente e gaiato. Se não solta um sorriso, é porque anda estressado.
- Se o pastor fica com os jovens, é imaturo e não se coloca no seu lugar. Se com os adultos, é antiquado, ultrapassado e cafona. Se ficar com as crianças, é infantil e precisa amadurecer.
- Se o pastor procura atualizar-se, ele é mundano e tem mentalidade secular. Se não se atualiza, é mente fechada e não quer se reciclar.
- Se o pastor cuida da família, é descuidado com a igreja. Se cuidar da igreja, é descuidado com a família.
- Se o pastor prega muito tempo, é prolixo, cansativo, metido a intelectual. Se pregar pouco, é que não tem mensagem, nem da internet.
- Se o pastor procura agradar a todos, é sem personalidade e interesseiro. Se for positivo e procura corrigir e disciplinar o rebanho, é porque é parcial e só disciplina os fracos.
- Se o pastor realiza programas novos, é que só quer viver de promoções e ôba-ôba! Se não realiza, é que não tem idéias novas.
- Se o pastor é alegre, é sem linha e deveria ter mais compostura. Se chorar no púlpito, é chorão, sensível demais e não tem domínio próprio.
- Se o pastor organiza trabalhos e campanhas, é explorador do rebanho. Se não organiza, é que não dá trabalho ao rebanho e não tem criatividade.
- Se o pastor fala alto, é que não tem argumentos para convencer. Se falar baixo, é um coitado, tímido, e nem voz tem.
- Se o pastor prega nas ruas, é porque barateia o evangelho. Se só fica na igreja, está acomodado nas quatro paredes do templo.
- Se o pastor faz amizades no rebanho, é que tem panelinha e faz acepção de pessoas.
- Se o pastor ora muito, é porque não tem o que fazer ou está querendo aparecer. Se orar pouco, é um pastor relaxado, irresponsável, preguiçoso e carnal.
- Se o culto termina cedo, ele é frio e não deixa o Espírito operar na Igreja. Se o culto excede o horário, é irresponsável e impontual.
- Se o pastor fala em outras línguas em público, deveria evitar e atentar para a decência e para a ordem do culto. Se não fala, deixou de ser renovado ou perdeu o dom.
- Se o sermão pastoral tem dez pontos, é chato e cansativo. Se o sermão tem apenas dois pontos, ele não tem conhecimento bíblico.
- Se ao pregar trata de necessidades da congregação, está expondo as pessoas.
- Se o pastor falta a algum culto, é porque está pensando em deixar a igreja. Se nunca falta a qualquer culto, vai terminar um dia no psiquiatra.
- Se o pastor prospera financeiramente, deve estar roubando da Igreja. Se não prospera, está em pecado ou tem pouca fé.

Se o que o pastor faz não pode ser considerado trabalho, o que é então? Uma simples conversa com uma mulher de pastor ficará explícito o que desgaste que eles têm sofrido. Eles ficam velhos mais cedo, tem problemas de saúde ligado à estresse e hipertensão, desenvolvem gastrite e uma boa parte já é dependente de remédios.
Homens que deveriam ser honrados pelo seu trabalho, são ridicularizados. Constantemente alguém me pergunta sobre a minha profissão. Ao responder que sou ministro do Evangelho, eles inquirem: como assim? E geralmente explicar esse "como assim" é terrível porque também vou te explicar que não tenho nada a ver com os escândalos, terei de convencer que sou um pastor sério e comprometido e que minha alegria não é porque sou subsidiado, mas porque fui escolhido para tão nobre trabalho. Me alegro porque num mundo que está perdendo seus referenciais, eu tento a todo custo, discipular, ensinar e consolidar pessoas de todas as classes sociais e de diferentes níveis culturais no Reino de Deus. Isso dá trabalho!
Outro dia recebi um irmão enquanto trabalhava numa construção anexa à Igreja que pastoreio. Mostrei-lhe tudo. Quando chegou a hora de mostrar o gabinete pastoral, ele me perguntou sobre uma janela que permitia a visualização interna. Eu respondi que era uma necessidade, uma tentativa de suprimir a desconfiança, principalmente quanto atendesse uma irmã ou uma jovem. Sabe o que ele me disse? "Engraçado, eu atendi em consultórios durante anos, nunca vi a necessidade de ter uma janela que permitisse alguém de fora me ver lá dentro. Nem médico, nem advogado nenhum profissional tem essa necessidade, mas a Igreja, que deveria ser o lugar onde confiamos uns nos outros, carece desses artifícios". Isso não descreve trabalho?
Que Deus abençoe a todos os pastores trabalhadores e que comece por aqueles que ministram sobre mim.

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