quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Morte Não é o Fim


“Jesus chorou” (Jo 11.35).

Esse é um dos menores versículos da Bíblia, mas talvez o que expresse com mais exatidão o que sentimos ante a perda dos entes queridos.

Ante o túmulo de Lázaro, o Senhor da Vida parece ser mais humano do que Deus. O Homem que havia acalmado a tempestade, que havia repreendido a Satanás, que havia curado os leprosos, purificados os pecadores e libertados os oprimidos, tem agora diante de si um dos grandes desafios de seu ministério: entrar no império da morte e subjugar o seu poder aos seus pés.

Quando avisado sobre o que estava acontecendo com seu amigo Lázaro (vocês sabem a história), Jesus não mudou nada do que estava fazendo. Pelo contrário, demorou ainda quatro dias para ir visitar o doente que, agora, segundo a sua família, era tarde demais. Lázaro estava morto e já cheirava mal.

Jesus é o único com condições de dizer alguma coisa em momentos como este.

Ao Pai, na cruz do calvário, entregado o seu espírito ao Senhor da Vida, disse: “Está consumado”.

À Marta e Maria, com a autoridade que sempre teve, disse: “Lázaro não está morto. Ele apenas dorme, mas eu vou despertá-lo. Eu Sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”.

À viúva de Naim que levava seu único filho dentro de um caixão ao cemitério da cidade, Ele calmamente, da maneira que lhe é peculiar, quem sabe olhando nos olhos e tocando em seu ombro, disse: “Não chores mais”.

Como pode essas três situações trazer consolo a nós que ficamos? Como esquecer a dor que hoje aperta-nos o peito? O que dizer àqueles que estão chorando mais do que nós?

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração” (Ec 7.2), dizia o sábio Salomão. Ele sabia o que era perder alguém.

Por isso, para nós que ficamos cada vez que um de nós se vai, lembramo-nos das três palavras de Jesus quando esteve entre nós:

I – A PRIMEIRA PALAVRA DE JESUS: “Está consumado”

Na cruz do Calvário, havia milhares de palavras que melhor expressariam a dor que sentia. Ele não gritou aos berros parecendo entregar-se à morte, não. Ele pela sua morte vencia a própria morte e vitoriosamente nos garantia uma porta quando tivermos de descer a tumba fria.

Milhares de pessoas que hoje morrem, morreram felizes por confiar nesta palavra:

A morte não é a extinção da luz; é o apagar da lâmpada com a chegada da aurora.

A morte é uma benção, pois dá fim a todas as tentações.

A morte é o prenúncio da vida. Morremos para que não venhamos mais a morrer.

A morte é o fato mais importante da vida. Não estamos aqui para ficar, mas, sim, para partir.

Satanás pode perseguir o cristão até as portas da morte, mas não pode continuar depois dali.

Quando a morte derruba um cristão aqui na Terra, ele cai no Céu.

Para o cristão,a morte não é nada mais nada menos do que tirar uma linda flor do deserto e plantá-la no jardim do paraíso.

Para o cristão, a morte é o êxodo; o içar das âncoras, a chegada ao lar. Aqui, somos muito navios ancorados; na morte, somos lançados em nosso verdadeiro elemento.

Para o cristão, a morte não um miserável beco sem saída, mas uma gloriosa estrada aberta para a presença de Deus.

D. L. Moody disse: “Algum dia vocês lerão nos jornais que D. L. Moody, de EastNorthfield, morreu. Não creiam absolutamente nisso. Naquele momento estarei mais vivo do que agora.

A morte põe fim à separação que temos fisicamente de Deus.

“Está consumado”. A porta que antes estava fechada, agora está aberta. A tristeza que perdurava por gerações, agora pode ser apenas boas lembranças daqueles que foram antes de nós.

II – A SEGUNDA PALAVRA DE JESUS: “Lázaro não está morto. Ele apenas dorme, mas eu vou despertá-lo. Eu Sou a Ressurreição e a Vida. Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”

Gentilmente, conhecendo a morte como nenhum de nós conhecemos, Jesus diz às enlutadas Marta e Maria que Lázaro estava dormindo. Para Jesus, a morte é apenas um sono da alma.

Lázaro era amigo de Jesus. Jesus o amava, por isso chorou a beira do túmulo. Mas para Lázaro, Jesus fez algo especial: trouxe-o de volta. Primeiro por que Ele mesmo disse que a sua “enfermidade era para a glória de Deus”. Jesus esperou, Lázaro morreu e a glória de Deus se manifestou quando Ele bradou com sua voz poderosa: “Lázaro, vem para fora”. E Lázaro saiu, completamente restaurado, sem nenhuma marca de morte. O mesmo Lázaro de alguns dias atrás.

Existe nessa passagem bíblica grandes ensinamentos para todos nós que ficamos:

1. Jesus aproveitou a ocasião para render glórias a Deus.

Será que a morte dos santos não rendem agora, nesse momento, glórias a Deus? Quantos não estiveram em seus funerais e pensaram sobre como anda sua vida? Quantos não tiveram a oportunidade de entregar a sua vida a Jesus por que refletiram sobre a brevidade da vida?

“Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando” (Sl 90.10).

“Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar disso devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo” (Tg 4.13-15).

A glória do final de nossas vidas pertence a Deus.

2. Jesus disse que Lázaro estava apenas dormindo.

A Bíblia nos garante que o crente que serve a Deus não morre. A morte de um crente é apenas um cochilo.

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos (1Co 15.51a).

3. Jesus ressuscitou a Lázaro por que conhecia-o.

Será que estamos servindo a um Deus que não nos conhece? Tanto tempo de amizade seria esquecido depois que morrermos? Jesus não chamou a Lázaro por outro nome, chamou-o de Lázaro. Ele conhecia-o.

Há um hino na harpa cristã que nos conforta ante essas situações. Pode ser que o seu nome jamais seja lembrado, mas lá no céu...

Quando a angelical trombeta neste mundo estrugir / O meu nome eu ouvirei Jesus chamar / Pois eu creio na promessa de Deus que vai cumprir / Quando ouvir Jesus meu nome proclamar.
Glória, glória, aleluia / O meu nome ouvirei Jesus chamar / Glória, glória, aleluia / Eu espero ouvir Jesus a me chamar / Ó que música suave há de ser, pra mim, ouvir / O meu nome Jesus Cristo anunciar / O que gozo vai minh'alma lá nos altos céus fluir / Quando Cristo o meu nome proclamar

4. Jesus garantiu que aquele que nEle crer, ainda que esteja morto viverá.

Essas palavras de Jesus nos tiram o medo da morte.

Thomas Goodwin, no momento de sua morte disse: “Ah, isso é morrer? E eu temi como inimiga essa minha amiga que me sorri”.

Andrew Bonar, num de seus sermões, bradou: “Senhor, dá-me a despedida de Simeão – Cristo em meus braços”.

Charles H. Spurgeon, aconselhando os jovens de sua época, ensinou: “Se eu puder morrer como tenho visto algumas pessoas morrer, anseio por essa grande ocasião. Não gostaria de escapar por nenhum atalho se puder cantar como eles cantaram”.

Arthur S. Wood, quando viu que sua vida estava por um fio, suspirou: “Meu momento mais feliz será quando Deus colocar a mão sobre o meu coração e fizer com que ele pare de bater”.

Não há maior esperança para aquele que morre do que um dia ressurgir e ver a Deus.

“Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados. Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (1Co 15.51-55).

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (Jo 14.1-3).

III – A TERCEIRA E ÚLTIMA PALAVRA DE JESUS: “Não chores”

A vida humana não existe sem choro.

O primeiro ato do recém-nascido é chorar. Quando se exala o último suspiro, o primeiro que fazem os circunstantes é chorar. E todos parecem esquecer o que disse O Barão de Montesquieu: “Devemos chorar as pessoas à nascença, e não quando da sua morte”.

Mas há vidas tão preciosas, tão especiais, tão relevantes que para nós mil vezes melhor seria se jamais viessem a morrer. Outras, como Manassés, morreram sem deixar saudades. Ou seja, ninguém chorou por eles.

Chora-se por nada e se chora também por tudo. Há os poucos que choram quando ganham e os muitos que choram por perderem.

Há os que choram no reencontro, e os que choram na despedida.

A mãe chora quando vê o filho nascer, chora quando vê o infante crescer, mas chora muito mais quando “perde” o seu amado para aquele (a) que o (a) amou ainda mais.

Chorar envolve sentimentos profundos. Significa o derramar da alma.

Chora-se pouco nas alegrias, chora-se copiosamente quando as tristezas aparecem.

Chora-se no primeiro dia de aula; chora-se muito mais no dia da formatura.

Chora-se pelos parentes de perto que sofrem, bem como se chora pelos desconhecidos de longe. Aqueles são vistos todo dia; estes só são lembrados pelos flashes e manchetes da mídia.

Chora-se diante da sacrificial obediência dos filhos submissos. Chora-se ainda mais pela traição dos pródigos desalmados.

Chora o pastor pela ovelha desgarrada, chora o artista pelo quadro destruído, chora o órfão pelo (a) amado (a) que se foi.

Chora o turista sábio por tudo o que viu. Chora o viajante distraído por aquilo que deixou de ver.

Chora o comerciante pela falta de clientes.

Chora o jogador pela vitória sofrida.

Chora Jacó por Raquel, chora Paulo pelos irmãos de Mileto, chora João pelo Cristo eterno, chora Jesus pela cidade de Jerusalém.

Todos choram. Melhor dizendo, todos choramos.

Você também chora.

Há os que dizem que chorar nada significa, mas outros, como Shakespeare, preferem declarar que “chorar é diminuir a profundidade da dor”.

Fácil, bem fácil mesmo, é dar opiniões sobre o choro, quando as circunstâncias não o produzem. Difícil, bem difícil mesmo é impedir que se chore quando tudo indica que chorar é o que mais acertado se pode fazer.

Às vezes parece que existem aqueles que melhor demonstram sua alegria, chorando. E que dizer dos que se alegram, tentando mostrar que choram? Talvez Tácito estivesse pensando nesses quando disse que “ninguém chora com mais ostentação do que os que mais se regozijam”.

A Divindade se caracteriza pela impossibilidade de chorar. Chorar, portanto, é quase o traço maior da prova da humanidade. Isto posto, o grande monumento que evidencia a humanidade perfeita do Filho de Deus provavelmente é Jo 11.35: “Jesus chorou”.

Milhares de judeus teriam seguido o Nazareno se não tivessem ouvido Dele a sentença que os fez encher de desprezo pelo Messias de Israel: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”. Não valem divagações quando o Mestre fala. Sua Palavra é a verdade. Chorar é bom e faz feliz.

Eu chorei, tu choraste, ELE chorou. Apenas te digo que não chores sem consolo, ou seja, não chores longe Dele.

Ele é o Primeiro Consolador de nossas vidas. E por haver regressado ao Seu Lar Celestial, brindou-nos com a oferta do Espírito Santo, o “outro” Consolador.

Se precisares “nadar o teu leito em lágrimas”, como hiperbolizou Davi, lembra-te de que é prova de sabedoria manter a disciplina sobre duas coisas na vida: saber chorar e entender quando parar de chorar.

O Mestre da Galiléia, que chorou no momento certo, disse para a viúva de Naim: “Não chores”. Ela já havia chorado o suficiente. Vale recordar o conselho de Rabindranath Tagore. Ela pode de alguma maneira merecer atenção, especialmente para aqueles que não sabem por que choram, ou insistem em continuar a chorar depois de visivelmente confortados: "Se choras porque perdeste o sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas”.

Até que cheguemos ao Céu, o lugar sem lágrimas, muito teremos que chorar. Mas não permitamos que o excesso de nossas lágrimas comprometa a abundância de nossa alegria, transformando-a em escassez inócua.

Entre chorar e chorar o melhor a fazer é sorrir e sorrir.

Qualquer choro cambaleia quando ouvimos esta popularíssima expressão: “Sorri. Jesus te ama”.

Cada um de nós tem um pouco de Jeremias dentro de si mesmo. Mas, por que não ter, também, muito de Paulo? “Regozijai-vos. Outra vez vos digo: regozijai-vos”.

Irmãos que choram, ouçam o que diz a Palavra eterna: “chorai com os que choram”. Mas não fiquemos aqui. Vamos um pouco adiante: “Alegrai-vos com os que se alegram”.

Em conclusão, descansemos nossa alma com imortal declaração do salmista: “O choro pode durar a noite toda, mas a alegria vem pela manhã”.

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Palavra dirigida às famílias enlutadas no dia 8 de Fevereiro de 2010.

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